Thiago Salomão
11/02/11 – 20h33
SÃO PAULO – Eles foram os grandes vencedores de 2010. Em um ano em que o Ibovespa teve uma modesta alta de 1,04%, alguns fundos de investimentos classificados pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais) como “Ações Ibovespa Ativo” tiveram uma rentabilidade acima da faixa dos 40%, segundo a tabela de fundos elaborada pela associação.
Já dentre as small caps, embora o ano passado tenha sido muito bom – o índice SMLL da BM&F Bovespa, que compila as principais companhias desse nicho, subiu 22,74% no período – alguns fundos small caps também conseguiram se despontar com rentabilidades bem acima do desempenho do benchmark, conforme o relatório divulgado pela Anbima na segunda metade de janeiro.
Embora cada um desses fundos campeões de rentabilidade em 2010 tenha suas particularidades, a opinião de seus gestores é quase unânime no que se refere ao motivo dessa performance diferenciada: a aposta em ações ligadas à economia doméstica, extremamente aquecida por conta dos efeitos das medidas tomadas em 2009 pelo governo para enfrentar a crise, e a aversão por ativos expostos aos mercados internacionais – como as siderúrgicas, por exemplo – e à Petrobras, que vivia um momento de grande incerteza por conta do processo de capitalização.
“Em 2010, o Ibovespa não foi bem, principalmente por conta da Petrobras e por outras produtoras de commodities. Mas se você olhar dentro do Ibovespa para as empresas ligadas ao mercado doméstico, 2010 foi um ano excepcional”, afirma Roberta Kosaka, gestora do Itaú Unibanco responsável pelos fundos de small caps Unibanco Micro Cap, Instit Small Cap, Small Cap Valuation IB e Unibanco Small Cap, que fecharam o ano com performances positivas entre 24% e 38,5%.
E não foi apenas de exposição à economia local que foi feita a rentabilidade dos fundos em 2010. O sócio-gestor da Nest Investimentos, Francisco Meirelles de Andrade, conseguiu lucrar com o ano ruim vivido pela Petrobras e pelas siderúrgicas, que perderam praticamente um quarto de seu valor de mercado em 2010. “Tivemos uma leve posição vendida em Petrobras durante o ano, bem como em algumas empresas do setor siderúrgico, ficando na ponta comprada em empresas ligadas à economia doméstica”. Com performance de 44,53%, o fundo Nest Ações Master teve o melhor resultado do ano dentro da categoria Ibovespa Ações Ativo, segundo a tabela de fundos da Anbima.
2011: mercado doméstico continua sendo visto com bons olhos…
Se esses gestores conseguiram se antecipar ao movimento dos mercados em 2010, vale a pena ouvir a opinião deles sobre quais setores deverão se destacar em 2011. Para Roberta, do Itaú Unibanco, muita coisa positiva vista ano passado na economia doméstica deve se repetir em 2011. Embora o PIB (Produto Interno Bruto) não deva mostrar uma expansão tão forte em 2011, outros indicadores de atividades, de massa salarial e de desemprego deverão manter um ritmo acelerado, prevê a gestora.
Aliado a isso, a superintendente de investimentos do Votorantim Asset Management, Sandra Petrovsky, chama a atenção para o desempenho negativo de muitas ações ligadas à economia interna no final de 2010 e no começo de 2011, o que pode ter aberto boas oportunidades de entrada nessas companhias. “Nós ainda gostamos muito de empresas ligadas à indústria e algumas empresas ligadas ao consumo”, afirma a superintendente, que viu o fundo Votorantim FI Vision acumular ganhos de 36,72% em 2010, um dos principais destaques na categoria “Ações Small Caps”.
Para ela, essa queda recente deve-se muito à fuga dos investidores estrangeiros do País, que passaram a olhar o Brasil com diferentes olhos após o Banco Central retomar o ciclo de alta da taxa de juro, o que deve arrefecer o crescimento da atividade brasileira. “Assim como quando o investidor estrangeiro entra no mercado brasileiro ele acaba puxando as ações para um patamar não justificado, quando ele sai ele também derruba as ações para um preço não justificado”, explica Sandra.
…mas deixou de ser unanimidade
Contudo, se os setores expostos à economia brasileira foram quase uma unanimidade em termos de investimento em 2010, o mesmo não pode ser dito em 2011. Para Flavio Sznajder, gestor do fundo Bogari Value, classificado como “Ações Ibovespa Ativo” e que teve uma rentabilidade de 29,52% em 2010, o ano que passou foi marcado por muitos ativos ligados ao mercado doméstico com boas probabilidades de se valorizarem. No entanto, vendo esse bom momento já precificado, dificilmente será possível lucrar com esses papéis em 2011, acredita o gestor.
“Hoje em dia você não tem tantos papéis com alta assertividade de ter rentabilidades relevantes. Você tem vários ativos que estão com um preço completamente fora da realidade”, complementa Sznajder.
Commodities em destaque
Com as empresas expostas diretamente ao desenvolvimento econômico do País perdendo a unanimidade nos mercados, outros setores começam a ganhar espaço na preferência dos gestores. Um deles é o de commodities, que já começa a colher bons resultados nesse começo de ano por conta das melhores percepções acerca do ritmo de recuperação das principais economias do mundo, que andaram devagar em 2010, explica Roberta.
“Você percebe uma melhora na percepção principalmente em relação à economia norte-americana, o que pode ser percebido pelo aumento do fluxo de capitais para as bolsas de lá”, complementa a gestora do Itaú Unibanco, acreditando que as ações ligadas às commodities devam andar melhor dentro desse cenário.
Por gerir os fundos small caps do banco, Roberta explica que há poucas oportunidades nesse nicho para tirar proveito dessas projeções. “Você tem algumas opções, como a Bradespar (BRAP4) e essas empresas novas do setor de petróleo que estão sendo listadas na BM&F Bovespa, como a HRT (HRTP3) e a Queiroz Galvão (QGEP3), mas na verdade tem menos oportunidades”, diz a gestora. “Tanto que se você me perguntar, minha carteira ainda tem uma cara muito voltada à economia doméstica porque eu tenho uma limitação de que tipo de papel de commodities eu posso colocar”, complementa.
Quem também espera um ano melhor para os papéis ligados a produtoras de commodities é o gestor do fundo da Bogari. Embora acredite nisso, ele prefere não se expor ao setor, tendo em vista o alto nível de incerteza que o circunda. “Mesmo com essa alta probabilidade, isso depende de tanta coisa – dólar, recuperação dos EUA e da Europa, crescimento da China, entre outros – que acaba não valendo a pena tomar esse risco”, afirma Sznajder.
Segmentando o universo das produtoras de commodities, Andrade, da Nest, acredita que um setor que tende a se beneficiar em 2011 é o de alimentos. “O Brasil é um dos maiores exportadores de commodities agrícolas do mundo e eu acho que esse ano tende a ser muito bom para o setor”, acredita Andrade. No entanto, por não ver muita sustentabilidade na tendência das matérias-primas, ele mantém suas apostas na ponta de compra em setores mais ligados ao crédito.
Setor financeiro também é citado
Avaliando as ações ligadas ao mercado doméstico como relativamente caras e optando por não se expor ao mercado de commodities, o gestor da Bogari destaca o setor financeiro como uma das boas opções para investir em 2011. “Por causa das incertezas mundiais, da elevação dos juros internos e das medidas macroprudenciais do governo local, as ações do setor estão relativamente baratas ao que elas historicamente já valeram”, acredita Sznajder.
Será um ano difícil, mas oportunidades sempre existirão
No entanto, o gestor da Bogari fez questão de frisar que 2011 deverá ser um ano muito difícil para o mercado. “O que estamos preparados é que, se houver uma correção maior, não vamos sofrer tanto. No entanto, se houver uma surpresa com commodities, nós vamos acabar ficando um pouquinho para trás na rentabilidade, mas preferimos deixar um pouquinho de dinheiro na mesa e ter menos riscos”, explica Sznajder.
O gestor da Nest, por sua vez, destaca que a bolsa brasileira é uma das poucas dentre os países emergentes que possui liquidez em praticamente todos os setores. Dessa forma, é possível encontrar diversas oportunidades de aplicação em diferentes cenários econômicos projetados. “É muito difícil encontrar um cenário que seja ruim ou bom pra todos os setores. E esse ano não vai ser diferente”, estima Andrade.
Conheça os fundos que brilharam em 2010 e onde eles pretendem aplicar em 2011
