O mês de maio promete ainda muita oscilação para os ativos conforme novos dados forem divulgados lá fora ou mesmo por aqui. Os sinais de que o ritmo de queda da atividade econômica americana está menor ainda não são definitivos, alerta José Márcio Camargo, economista da Opus Gestão de Recursos. De qualquer forma, o mercado vem preferindo acreditar que a economia dos Estados Unidos e a mundial voltarão a crescer num futuro próximo. Ao longo deste mês, alguns dados se mostraram melhores do que inicialmente projetados pelo mercado, como o crescimento do consumo nos Estados Unidos, o menor nível de estoques, sem falar no aumento das compras de matérias-primas por parte da China. Mas, esses sinais positivos são tênues e é preciso ter cuidado, ressalta o executivo.
A crise nos Estados Unidos, apesar de ter dado um certo alívio, terá novos capítulos, diz Luciano Tavares, sócio da Nest Investimentos. “O governo americano colocou um caminhão de dinheiro na economia, e isso agora está surtindo efeitos, mas a essência do problema não foi atacada”, diz. Mas, por aqui, a queda de juros deve atrair mais investidores para a bolsa. Com menores ganhos na renda fixa, os aplicadores deverão estar propensos a arriscar um pouco mais na renda variável. “Uma coisa é ganhar 18% com o CDI sem correr riscos, outra é ter um ganho de 10%”, exemplifica.
O executivo se diz bastante confiante no que diz respeito à economia brasileira e aposta nos setores mais sensíveis ao corte dos juros como o imobiliário, varejo e bancos. Na área financeira, a baixa alavancagem dos bancos, que antes engessava as instituições, agora se mostra como blindagem, diz Tavares. A ampliação da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 60 mil para R$ 20 milhões para Recibos de Depósitos Bancários (RDB) especiais voltou a deixar os papéis de bancos menores atrativos. “Em outubro, quando a liquidez secou, a preocupação era como os bancos de médio e pequeno portes iriam sobreviver”, lembra. “Agora, essas instituições já começam a falar em crescimento.”
Como a percepção é de que boa parte das notícias boas já estão incorporadas nos preços das ações, a expectativa para maio é de uma certa estabilidade em termos de preços na bolsa, o que não quer dizer que não haverá oscilação, avalia Jacob Weintraub, sócio da Oren Investimentos, que também vê com bons olhos os setores de construção, por conta das medidas de incentivo feitas pelo governo, e varejo, dado que aumenta o poder de compra dos brasileiros. “No longo prazo, entretanto, sou bastante otimista e a bolsa brasileira continua atraente”, diz.
Na renda fixa, a maior parte dos prêmios com juros já passou, embora alguns papéis com vencimentos mais longos ainda apresentem ganhos bastante interessantes, avalia Otávio Vieira, da área de private banking do Safdié. As Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F), títulos prefixados com pagamento de juros semestral, com vencimento em 2017, garantiam ontem, segundo o site do Tesouro Direto, taxa de 13,11% ao ano, o que se mostra um retorno bastante interessante, diz o executivo. As NTN-B – papéis com rentabilidade vinculada à variação do IPCA acrescidos de juros definidos no momento da compra – com vencimento em 2013 pagavam taxa de 7,08%. “É um juro real que pode ser considerado ainda alto”, afirma.
O Banco Central vem adotando uma política monetária anticíclica, de cortar os juros num momento de crise, lembra Tavares, da Nest. Com retornos menores nos títulos públicos, os investidores também devem buscar cada vez mais os papéis de crédito privado, o que pode ser um escape para as companhias que buscam recursos para investimentos.
A grande discussão no Brasil hoje é qual nível de juros reais consegue manter a taxa de inflação sob controle, diz Camargo, da Opus. “Dado o elevado grau de ociosidade da indústria, aumento do desemprego e estoques, não consigo ver da onde viria uma pressão inflacionária”, diz o executivo. “Mas, quando a economia voltar a crescer, o Banco Central muito provavelmente terá de elevar os juros, mas não é possível ter ter certeza disso”, diz.
Enquanto a bolsa dá de goleada em termos de rentabilidade em relação a outras aplicações financeiras, o dólar comercial registra desvalorização de 6,26% em abril e acumula perda de 6,90% no ano. Já o euro apresenta no mês queda de 5,95% e de 10,60% no ano. “As importações estão caindo mais que as exportações, o que está fazendo com que os números da balança comercial venham surpreendendo positivamente”, diz Camargo. Com isso, o executivo acredita numa valorização do real em relação ao dólar. Aparentemente, esse é o último item do kit Brasil a se ajustar.